quarta-feira, 3 de julho de 2024

Precipício

I - Mundo


Acredito que todo ser humano com um pouco de senso crítico e noção de realidade um dia já parou para pensar na sociedade que o cerca. Seja lá o que ele tenha refletido, sendo caracterizado como crise existencial, lapso de existência ou qualquer outra coisa que o tenha levemente feito embrulhar o estômago… todos pensam sobre a morte e o futuro da vida em si. Coisas naturais, como o envelhecimento, nos fazem pensar afundo sobre nossos atos, nosso passado e sobre a incógnita do futuro. Básico, certo?

Essas reflexões podem se tornar tão frequentes a fazer alguém se sentir em ansiedade extrema, o levando a passar por estágios de pré-loucura (famosíssimas crise de pânico e ansiedade). Eu não os julgo como cabeça fraca, todos nós temos pontos internos que nos fazem querer morrer, ou pelo menos “desmaiar por décadas”

No fundo, as pessoas sentem curiosidade em saber como seria o futuro, mas logo ficam apreensivas por não conseguirem viver o suficiente, ou são negativas e lembram que o mundo está, teoricamente, “acabando”. Lembram que cada vez mais a violência está pior, a mídia mais dominadora, crimes estão sendo escancarados, as pessoas estão sendo escravizadas com nomes bonitos e sendo feitas de reféns por telas de 6.1 polegadas.

A verdade é que, no fundo do meu mero coração adolescente de 19 anos (falando assim esse texto acaba soando mais patético ainda), eu realmente não estou nem um pouco otimista com a realidade dos novos fatos. A terra ferve, aplicativos consomem cabeças que nem sequer foram formadas ainda, as colocam padrões e dopamina em espécie de bombas visuais, perdem suas essências e viram pedaços de padrões pré dispostos pela mídia. Idênticos. Sem personalidade, como se fossem cópias. Com mesmos trejeitos, personalidade, estilo, conteúdo que consomem… é normal as pessoas serem tão parecidas? Comparáveis?

É uma situação complicada…

Ver a situação geral, e não só do meio em que eu convivo, sinceramente... me desanima.
Tudo parece tender a piorar, lentamente e escancaradamente. 
Talvez isso tenha uma correlação com o meu pessimismo e talvez uma depressão? Sim, quem sabe. Mas olha, eu prefiro ser um pouco mais realista... não costumo me apoiar apenas em pensamentos depreciativos e culposos.


II - Sufocamento 


Tanta coisa se passa pela minha cabeça...

Eu quero ser realista, as coisas realmente estão caminhando bem? 
Temos tantos caminhos a seguir, e sabe, tantas explosões ao nosso redor que nos pressionam. Cada vez mais os padrões aumentam, cada vez mais as concorrências nos consomem, e a cada dia que passa no ensino médio, os alunos se aproximam cada vez mais da beira da loucura por tanto sufocamento. A neura de achar que você será um fracassado por não entrar em uma faculdade chega para muitos e, não diferente, chegou para mim também. 

A sensação constante de estar parado enquanto todos estão indo para seu segundo ano de faculdade é depreciativa. Imagine-se em tal situação em que há amigos seus que entram na USP e, enquanto isso, você se encontra em uma situação onde não faz a MÍNIMA ideia do que fazer da vida pois todos os cursos agradam e te desagradam ao mesmo tempo desde o oitavo ano. 

Nenhuma profissão é perfeita, mas deveria ser tão difícil assim se ver em uma carreira?
A verdade é que o fim do ensino médio sempre deixa uns ou outros preocupados com futuro. Acabou a rotina, agora realmente é cada um por si? Bem… não exatamente.

III - Desesperança 


A desesperança pode tomar o corpo de qualquer um. Desmotivado, o ser humano tende a reagir de diversas maneiras. 
Dependendo do grau de sua desesperança, ele pode acabar sendo mais propenso a desistir de seus projetos e desejos pessoais. Há muitos casos de desesperança aguda, onde a mesma está presente a tanto tempo e tão intensamente que o indivíduo acaba desistindo de seu próprio rumo. Sua vida.
A depressão desesperançosa toma conta de sua rotina e, se não cuidada, o indivíduo fica propenso a um possível quadro de piora.


A desesperança, no final das contas, se tornou algo familiar


IV - Eu


Talveeeez a Joyce nunca tenha sido feita para se formar na escola.
Seu preparo emocional nunca foi dos melhores e, quer saber? Desde pequena ela sabia que ela ia odiar crescer. Sem dúvidas, sempre. Sempre tinha aquela leve ilusão e curiosidade sobre como seria a sensação de ser mais velha, porém a consciência de que tudo seria um tanto mais complicado sempre (ou quase) esteve presente nela… a desesperança chegou.

Essa frustração é constante.
Eu cresci. Não tanto, mas cresci. Já fazem dez anos que conheci a Joyce de nove. A que tinha felicidade em seu coração e desejava, no futuro, trabalhar com artes em miniatura sem se preocupar com o salário no final do mês. 
“Artistas plásticos não recebem bem!”
Ok, ok… e agora?
Logística, design, administração, enfermagem, fisioterapia, psiquiatria, gestão, RH, artes… um pouquiiiinho diferentes uma da outra, né? Chega a ser cômico.

O tempo foi passando, completaram dois anos que o terceiro ano ficou para trás, o desespero de não ter decidido absolutamente nada piorou, e assim a Joyce tem, fácil e rápido, a sua maior crise de desesperança.
Eu sei, é normal. Tantos adolescentes passaram por isso, passam e sempre vão passar. Afinal, quem consegue decidir plenamente o que deseja seguir como carreira aos 17 anos com segurança? Bem, vamos fingir que não ouço sussurros gritarem “muita gente”.

Não é fácil. Não foi pra mim, pelo menos.
Joyce foi se levando e, mais precisamente, levando as coisas com a barriga. E o pior, estava ignorando que dentro dela tudo estava completamente confuso e caindo aos pedaços. Aos pedacinhos, né?
São como gotas. De pouco em pouco, a água se junta e o copo começa a encher, até um dia transbordar.


V - Mudanças

No final, a Joyce não teve escapatória. Sempre odiou qualquer tipo de mudança em sua rotina. A incerteza sobre o que aconteceria depois do ensino médio finalmente estava sendo vivenciada e, bem, mudanças.

Seus planos um tanto depressivos foram por água abaixo e ela tentou lidar com toda aquela onda de responsabilidades e informações novas que estavam sendo bombardeadas em sua cabeça. 
Fez cursos, começou uma faculdade (e logo a trancou), fez provas, aprendeu a se transportar sozinha, elaborou um currículo, fez entrevistas de emprego, desistiu de um emprego...

"Parabéns! Você passou no processo seletivo da BP!"

Ok, essa não podia fugir né? 

Me peguei pensando na Joyce de mais de um ano atrás treinando uma entrevista para entrar na BP como enfermeira. Irônico.
Parecia estar sonhando. Um montante de informações novas, uma nova realidade, um salário, um lugar a frequentar todos os dias... isso parecia muito para sua mera cabeça de ensino médio. 
As coisas foram acontecendo, e ela lentamente foi aceitando as mudanças diárias. Criou uma rotina com aquilo, criou horários, assentos preferidos, um "cantinho" no vagão do metrô, uma porta predileta...

E aí, se deu conta.
A cada dia que passava, ela se cansava cada vez mais. Mudanças, mudanças, mudanças. Você foi promovida!
Joyce sempre levou as coisas com a barriga, até que ela se viu emboscada em seus próprios sentimentos. De novo.


Precisava de um psiquiatra. Ela queria se matar.


VI - Realidade


Acorde todos os dias às 05:00. 

Se arrume, fique socialmente apresentável e se apresse para pegar o ônibus para ir ao trabalho. Tome um café se houver tempo, saia com pressa e se aperte em um vagão como se fosse um enlatado. Faça o mesmo caminho de todos os dias. Passe uma hora dentro do vagão, faça baldeações, e torça para que o próximo esteja mais vazio. 

Coloque uma música para a viagem ficar mais agradável. Xingue em silêncio caso alguém esteja ocupando muito espaço com uma bolsa estratosférica, e, de brinde, esteja com ela nas costas (famosas tartarugas). Xingue quem estiver parado do lado esquerdo da escada rolante. Chegue em seu trabalho, repita tudo que fez no dia anterior. Vá embora e faça tudo no reverso.

Espere ansiosamente até a sexta-feira pós turno de trabalho. Saia com amigos. Beba até você esquecer que seu dia foi estressante. Beba até esquecer seu nome. Beba, beba, beba, dance, se divirta. Ouça música e a cante em voz alta (mesmo lembrando de um único refrão daquela). Esqueça que, segunda feira, tudo começa de novo. Vá para casa, durma, acorde com dor de cabeça. Descanse e veja sua série favorita. 

"Domingo à noite... droga. Amanhã é segunda feira de novo."

E assim, repetir a rotina por uma vida inteira...
Afinal, parece tão atrativo assim? 

Joyce se pergunta o que faz as pessoas permanecerem nessa rotina vivas. Sorridentes. Claro, elas cansam, mas como conseguem aguentar por tanto tempo? 

VII - Cansaço


A exaustão e a sensação de não estar conseguindo desempenhar todas suas funções como desempenhava antes é desesperadora. Se sente incapaz, se sente lesado, se sente como se fosse um robô automático sem energia e disposição. Faz, mas faz mal feito. Faz, mas faz sabendo que conseguiria fazer melhor se não estivesse tão cansada ao ponto de desmaiar todos os dias de sono.

Quem me dera fosse preguiça, quem dera fosse algo mais fácil de se resolver.

"Cansaço mental é um estado de estafa cerebral que esgota a energia destinada às atividades diárias. Geralmente, a pessoa percebe que ultrapassou seus limites e que não tem mais recursos mentais e emocionais para enfrentar desafios."

Não tinha mais forças para continuar tentando e ter disposição para enfrentar a nova rotina. Me vi sem um futuro, e acabei ficando sem rumo algum. Não tinha objetivos, não tinha perspectiva, não tinha vontade alguma de continuar. Não tinha mais MOTIVOS pra continuar, entende?
Todo potencial que todos diziam que eu tinha simplesmente desapareceu. Como isso era possível? Repetiam tanto sobre a Joyce ter um futuro brilhante, sobre eu ser uma menina empenhada, mas é só olhar minha situação atual que você começa a duvidar um pouquinho disso (haha). Não consigo nem mesmo pensar em uma faculdade IMAGINE estudar por conta própria para refazer o ENEM. Permanecer acordada se tornou algo doloroso.

Me sinto lesada. Inútil. Sem esperança.
Esse cansaço tomou proporções tão grandes que a vontade de apenas fechar meus olhos e (acidentalmente) cair de cima de uma ponte soa menos doloroso que ir trabalhar mais um dia. Tomar cinco vidros de histamínico (acidentalmeeeente) e, simplesmente não acordar mais, me parece no fundo uma boa saída. Dormir, dormir, dormir, dormir... apagar, apagar, apagar, não existir e não estar mais acordada. Sumir.


Só queria resolver tudo.
Mas bem, eu também não queria deixar ninguém pra trás...

VIII - Decisão

Existem pessoas muito indecisas neste mundo. 

Só sei que nada sei, só sei que nunca soube... a redundância sempre estará presente em nossos 
pensamentos agoniantes.

Às vezes decisões demoram anos para serem formadas e finalmente tomadas. Quando você analisa uma situação por completo, assim contendo todos os detalhes e visões, você acaba ficando confuso (e não toma uma iniciativa imediata).

Você pensa, pensa, pensa. 
Pensa no que pode dar errado, pensa se vai acabar se arrependendo, pensa nas consequências, pensa nas outras pessoas, pensa mil e um jeitos e porquês de tomar uma decisão, pensa se vai SEQUER conseguir tomar uma decisão...

Bem, às vezes ser confusa é ruim.

Indecisões à respeito de futuro te prejudicam. Apontam para o seu rosto e dizem que você deveria se agilizar. Dizem que você deveria de alguma forma arrumar algo para fazer, dão palpites sobre quais decisões tomar e, de brinde, o que seria supostamente melhor para sua vida. São tantos aspectos e tantas formas de lidar... por que diabos eu não consigo gerenciar nenhuma delas?

O mundo nunca foi certo, nunca foi tão previsível... mas nossa única certeza é a morte, né?


"Já tá na hora de você começar a pesquisar algo e estudar hein?"


Eu acho que me tornei incapaz de decidir por mim mesma




















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